Empreendedorismo femininno

Encontro com o psicanalista Guilherme Facci.

NM- As três paixões do ser: amor, ódio e ignorância- Esse é o tema do seu próximo seminário sobre o filme Lua de Fel de Roman Polanski.  Freud dizia que a psicanálise é a cura pelo amor. Isso ainda faz sentido nos dias de hoje?

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GF- Essa é uma questão que fica tão clara no dia a dia da clínica. As questões que chegam e os sintomas que são construídos  têm um relação direta com a dificuldade do sujeito de constituir a via da “alteridade”, da “diferença” em relação ao outro. Na maioria das vezes , os pacientes chegam ao consultório para reclamar ou colocar a culpa no outro. O outro é o culpado, o outro é o problema, em uma posição de não implicação na própria queixa. É como se dissessem ” Eu gostaria de me relacionar com alguém idêntico a mim mesmo! O outro é apenas um obstáculo. As pessoas querem se relacionar, mas convivem muito mal com as diferenças.  Querem se relacionar com elas mesmas.

Freud falava sobre O “amor de transferência”, que no interior da clínica é o que permite a invenção de uma nova maneira de amar e portanto de se relacionar com o mundo, não tão fixa na própria fantasia. Uma certa liberdade no final.

NM- Como você relaciona isso com as paixões do ser? O que isso tem a ver com o amor?lua-de-fel

GF- Para a psicanálise, Freud já falava disso em 1914 em seu texto sobre a “Introdução ao Narcisismo” o afeto constitutivo, a “defesa original” em relação ao outro é o ódio e não o amor. O amor é uma produção, uma invenção particular feita a partir do ódio.  Portanto profundamente narcísico desde sua constituição: amo aquilo que é importante e tem valor para mim! Veja que a referência é o próprio “eu”  desde o início. O amor portanto não seria um afeto “instintivo” ou “nato”, mas sim uma criação possível de casa sujeito, para que o laço social exista, e portanto varia muito de acordo com os valores culturais e históricos. O que era amor na idade média está longe de ser o que consideramos amor hoje em dia.  Jacques Lacan chamou esse tipo de amor de Sintoma, algo que faz suplência e permite que um sujeito exista no mundo.

NM- As três paixões do “ser”. 

Primeiro o amor que demanda completude, em sua demanda infinita e impossível de ser respondida, mas possível de ser modalizada. O ódio, afeto constituinte do sujeito que funda o campo imaginário e pede a destruição do outro sob forma de imperativo: ” ou você ou eu”, “matar ou morrer”. E a ignorância, campo da certeza, das consistências e da não implicação do sujeito na própria queixa.

A paixão do ser implica que a ignorância coloque o sujeito na posição passiva e não ativa. Lacan caracteriza a paixão como um padecer, ser objeto passivo. Ele diz de um tormento que um significante impõe ao ser.

Tem gente que “funciona” mais ou menos bem, mesmo com alguma angústia, nessa posição de ignorância durante uma vida inteira. Essas pessoas tem vidas “normais” ( o conceito de normalidade aqui, considero mais patológico e nocivo do que a “loucura”), e provavelmente nunca vão procurar ajuda numa análise. Sofrem sem saber porque. Nem se perguntam sobre isso. É um sofrimento sem escuta, sem um reconhecimento, talvez seja o pior estilo de sofrimento que existe.  O problema é que nós somos constituídos num equívoco e  esse equívoco tomado como uma “missão” de vida pode causar grandes sofrimentos para uma pessoa. Sustentar essa atribuição equivocada durante uma vida inteira dá um trabalho infernal!!!

Resumindo: estamos todos equívocados. Nos constituímos como sujeitos num equívoco e aí permanecemos na posição de ignorância. Um processo de análise pode permitir saber um pouco sobre esse equivoco. Mas não se trata de uma revelação mística religiosa, a psicanálise não opera milagres.

NM- Por que  estamos equivocados? lua-de-fel02

GF- Nos constituímos como sujeitos num equívoco que se dá através de uma suposição imaginária. Mais ou menos assim: ainda nos primeiros meses de vida o bebê começa a perceber ( ou pelo menos a mãe deveria dar condições para que isso acontecesse) que nas idas e vindas da mãe, seu olhar se dirige para outro lugar que não apenas o bebê. Essas idas e vindas, da mãe vão ser significadas pelo bebê como “o desejo da mãe.”

“Mamãe deseja algo que não apenas eu”, essa criança vai se colocar como aquilo que ela supõem que falta à mãe. E essa suposição vai se tornar uma atribuição: ,” Eu sou aquilo que falta no Outro”.  Uma suposição, portanto um equívoco, mas que é necessário para a constituição do sujeito.

Uma experiência analítica permite localizar, saber um pouco mais sobre esse equívoco. Que num final de análise vem sob forma de um verbo, solto. Sem objeto.

Ou seja é possível pelo menos nomear isso que as vezes nos ultrapassa, que é “mais forte que a gente” e que causa sofrimento. Saber sobre esse equívoco, esse engano, de forma nenhuma significa que essa marca será apagada. Não quer dizer que o sujeito terá uma iluminação e tudo estará resolvido.

Mas saber desse equívoco no final de uma análise pode permitir ao sujeito se equivocar um pouquinho de outras formas ( risos ). Ele ganha uma certa liberdade com isso. Uma posição menos fixa na fantasia que criou e sustentou durante tanto tempo.

Um sintoma que antes era uma queixa, pode se tornar a solução da própria queixa se o sujeito responder de outra posição. Fora do campo alienante em que estava anteriormente. Isso pode acontecer num final de análise. Eu disse pode, porque a experiência analítica não oferece garantia nenhuma.

Que loucura não é? ( risos)

Sobre o nosso entrevistado:

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Guilherme Facci, é psicanalista e atende em seu consultório. Além disso coordena grupos formativos em psicanálise dentro de um grupo de pesquisa que se chama ” Estilo & Formalização” ( psicanálise e lógica), voltado para psicanalistas.

Faz também uma vez por mês seminários em seu consultório para o publico “não psi”, onde fala sobre temas variados da clínica e da vida. Os seminários são divulgados em sua página no Facebook e também no site: www.pingpongcultural.com.br

Email para contato/ consultas: facci.psi@gmail.com / facci35@gmail.com

 

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