Entrevista com Káritas Ribas e Mari Cogswell, do Instituto Appana Mind e da consultoria Akashari, Caminhos com Sentidos

Mari e KaritasNM – Um pouco da história de cada uma…

Mari – Sou uma menina inquieta e curiosa, que nunca se contentou com respostas fechadas para perguntas profundas. Olho para a vida com a vontade de ver além e entre. Isso me move. Estudei pouco do que se oferece como estudo formal e muito do que está nas bordas do que se considera conhecimento. Formalmente, Comunicação, Diálogo, Coaching, Ontologia da Linguagem e Círculos de Mulheres. Informalmente, investigação dos “gaps” entre nossa civilização patriarcal e nossa ancestralidade matrifocal, restauração de nossa real natureza e identidade humana, resgate da nossa competência intuitivo-criativa, estudos e vivências dos mistérios femininos.

Káritas – Sou meio vira-lata, uma mistura de um monte de coisa… estudo, vivência empresarial, acadêmica e deu nisso. Minha primeira formação, em 1993 foi em Administração de Empresas.​ Depois derivei e fui estudar (e trabalhar com) o comportamento humano, me formei psicanalista e filósofa. Hoje faço mestrado com o Dr. Humberto Maturana no Chile, estudando a Linguagem como Estruturante da Cultura Patriarcal. ​Sou Coach Ontológica e atuo em atendimentos individuais e facilitando diálogos em Círculos Reflexivos. Sou fundadora do Instituto Appana e completamente apaixonada pelo que faço. Tenho dois filhos que amo muito, com 19 e 21 anos, ambos estudando em Universidades Públicas e construindo suas próprias histórias… me encanta acompanhar esse movimento deles.

Captura de Tela 2014-11-01 às 14.17.12NM – Quais são os principais entraves para a autonomia da mulher como ser social?

Mari – Entendo a autonomia como algo complexo para a mulher, uma vez que culturalmente somos criadas para ser centros magnéticos cercadas de penduricalhos por todos os lados. Seja em casa ou fora dela, as “tarefas” e a organização da vida nos cabe e é fiscalizada de perto por outras mulheres, também “submetidas” e “premiadas” neste lugar pelo sistema. Isso independe de quanto dinheiro “fazemos”. É um jeito de estar no mundo que merece ganhar foco para que possa ser problematizado e transformado.

Káritas – Os impactos sistêmicos​ de cada passo em busca dessa autonomia não são mensuráveis. O que vemos hoje ainda são lutas. Estamos no mercado de trabalho, ganhando menos e fazendo dupla jornada ou tripla jornada com os afazeres domésticos e o cuidado com os filhos que ainda são vistos como “tarefa das mulheres”. Podemos nos divorciar mas ainda precisamos de uma lei severa como a Lei Maria da Penha para ajudar a nos defender de uma violência institucionalizada. Nossa autonomia ainda está mais do discurso do que na cultura, em nosso modo de viver, mas vejo cada dia mais mulheres lutando por ela e isso é animador.Captura de Tela 2014-11-01 às 14.21.16

NM – Quais são os maiores anseios da mulher contemporânea? O que ela deseja mais fortemente?

Mari – Não faço a menor ideia. Nunca apreciei estudos que tentam dizer isso. Fica tudo na superfície e é meio fixador de estigmas culturais pré-existentes, do tipo “ter tempo para si” (isso diz da mulher-penduricalho, um espécime construído, e apenas reforça o sintoma, não é contemporâneo). Mas posso dizer o que gostaria que as mulheres desejassem. Que desejassem descobrir a beleza de ocupar este corpo tão diferente, que ousassem entrar em contato com a culpa tão aprisionante a que fomos impostas e que, bem no fundo dessa ferida, encontrassem a sabedoria de curar outras… Que deixassem de ter vergonha de sentir, de se emocionar, de desgovernar, de desencaixar, que retomassem a intimidade com o pulsos das próprias veias, com as marés de suas próprias águas e, com isso, voltassem a honrar a si mesmas… E, que do fundo dessa conexão, emergissem mais potentes para iluminar e orientar a vida à sua volta, que é nossa real função no mundo.Captura de Tela 2014-11-01 às 14.24.35

Káritas – Não acredito que exista uma unidade nomeável de “desejo da mulher contemporânea”. A Cultura Patriarcal ainda está impregnada nos ossos de muitas gerações que repetem um padrão de comportamento que vem servindo à conservação da cultura dominante há muito tempo. Vejo mulheres querendo sucesso, dinheiro, homens e filhos como a séculos atrás. Vejo outras buscando liberdade, autonomia, espiritualidade. Se eu puder sintetizar, na minha opinião acho que as mulheres hoje estão desejando construir um lugar que seja seu.

 NM – O que há de diferente no “olhar” feminino sobre a vida?

Mari – É um olhar de múltiplas camadas. Consciente ou inconscientemente a mulher capta o mundo à sua volta e o processa numa velocidade que o intelecto não captura enquanto acontece. É uma riqueza de percepções que ocorrem no nível sutil, que precisam de muita delicadeza, tempo e respeito para serem decodificadas e compartilhadas com o mundo.

Káritas  – Em síntese, é um olhar muito mais rico e poético. É afetivo e relacional, complexo e sistêmico. Pouco valorado por não ser rápido e objetivo. Mas essencial à manutenção da dança da vida. ​Temos a possibilidade de ver mais longe, mas é preciso um exercício para sairmos dos padrões que compramos como nossos. Como temos tido mais contato com nossa subjetividade (o que não foi culturalmente autorizado para os homens), estamos mais preparadas para lidar com as emocionalidades, nossas e de outros. Entretanto, não gosto de generalizações, principalmente quando se trata de gênero, pois muitas mulheres, para jogar o jogo do mercado e do trabalho adotaram padrões e linguagem “masculinas” para sobreviver e hoje temos sofrido por isso, pela desconexão conosco

NM – O olhar da mídia x Mulher

Mari – A mídia visa audiência, visibilidade, lucro, manchetes, impacto. A mulher a serviço da mídia é um protótipo fragmentado em facetas que se alternam em segmentos de consumo (a executiva, a mãe, a dona-de-casa, a de bem com a vida) e em produto de consumo (a mulher-bunda, a serviço da cerveja, dos programas de auditório, das revistas masculinas, das revistas femininas). Mulher e mídia são uma combinação “entristecedora” para aquela que nasceu nesta maravilhosa pele.

Káritas – Vejo uma utilização estética superficial da mulher pela mídia, como um produto e mais recentemente como consumidoras vorazes: moda, culinária, beleza são os temas facilmente relacionados à mulher. É claro que somos isso também, mas não só isso! Não consigo deixar de me perguntar: essa imagem está à serviço do que e de quem? Felizmente algumas iniciativas têm colocado os holofotes sobre outras facetas do feminino, sobre a importância do cuidado de si, sobre nossas lutas, sobre a violência que de tão constante passou a ser invisível.

Captura de Tela 2014-11-01 às 14.26.28NM – Exemplos de comportamentos considerados pela sociedade “ fora de padrão”

Mari – Todo tipo de liberação da função penduricalho: uma mulher que não arruma ou organiza a própria casa, que escolhe não ter filhos, não ter marido, uma mulher que não “serve” pra nada, só a si mesma… Uma mulher que não encolhe pra caber ou pra agradar. Uma mulher que não vive em função das pessoas que ama.

Káritas – Sempre fomos “servis”, sempre fomos premiadas por dar retaguarda aos homens (maridos, chefes, pais, filhos) e quando assumimos papéis centrais, sinto um “estranhamento” tanto de homens, quanto de outras mulheres. Parece que aquela mulher que brilha não deveria estar lá… no mínimo recorreu a algum expediente duvidoso para chegar lá… É lamentável, mas ainda existe esse pensamento amplamente compartilhado. Mulheres que declaram abertamente que não querem ser mães, por exemplo, chocam!

NM – Como surgiu o trabalho de vocês?

Mari – De um desejo milenar de estar de novo entre irmãs, de voltar a aprender e ensinar a ser mulher, entre mulheres. De poder voltar a sentir num espaço de segurança, onde o sentir pode ser gestado sem precisar ser explicado nem resolvido. Da intenção de ancorar um espaço de verdadeira intimidade, com tempo pra cultivar a profundidade. E do prazer em viver a cumplicidade e a inteireza de viver tudo isso.

Káritas -Nosso projeto nasceu em primeiro lugar do nosso encontro. Temos motivações e intenções distintas, mas o amor que sentimos uma pela outra, esse amor de irmãs fez possível a conciliação de nossos interesses em um só projeto. No meu caso, meu desejo era abrir um espaço/tempo para que pudéssemos falar do que verdadeiramente nos importa e que não é dito nos círculos que vivemos em nosso cotidiano – trabalho, família, amigos. Um espaço de compartilhamento de experiências e de aprendizagem mútua. Nos Diálogos ninguém ensina e todas ensinam.

Captura de Tela 2014-11-01 às 14.16.36Káritas por Mari.

Foi amor à primeira vista. Ela tem a fala suave e firme. Coisa de gente antiga. Sábia. Fala ao fundo do meu ser. Me acalma e aquieta. Me acolhe. Me alegra. Me apoia. É uma irmã de quem tinha uma saudade atemporal. E como irmã me desafia, me cutuca, me incomoda, mas me vê, flui comigo nos meus fios malucos, me incentiva, me amplia, me ampara. Danada essa Káritas, não existe mais a minha existência sem ela!

Mari por Káritas

Mariana é uma irmã. É uma mulher que me ​emociona por sua singularidade, por sua inteligência, por seu carisma. Ela tem a alma gigante e é admirável como toca as pessoas por onde passa. Conversar com a Mari é abrir janelas internas para o Universo, para múltiplas conexões, para a poesia da sua fala e elegância do seu estilo. Mariana é um mundo lindo, uma mulher incrivelmente apaixonada pela vida e apaixonante em sua vivacidade. Conviver com ela é um enorme privilégio e um presente para mim.

Instituto Appana

 

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Sobre ccaureis

Jornalista e Mediadora de Conflitos
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